São dez horas da manhã na rua de Camões quando, ao acordar de um excelente sono reparador, abro os olhos e vejo a pardacenta luz do dia - 23 de Agosto de 2006 - entrando pela janela de meu quatro, num arruinado terceiro-andar onde as pombas fazem à vontade ninho no sótão, se acoitam e arrulham em cada arrebol.
Assediado pelo mesmo incómodo calor da véspera, levanto-me, lavo-me, atavio-me e daí a 20 minutos estou a sentar-me numa das mesas do velhinho Café Novo, na Praça da República, para tomar o meu pequeno almoço: meia-de-leite e torrada bijou.
Como habitualmente, o Armindo serve-me, sem palavras, e coloca-me ao dispor o "24 Horas". Cômo e leio, vejo em grande pose, de dedo apontado aos deuses da sabedoria financeira, o actual ministro do dinheirinho português misturado com os outros vis metais da Europa, também um dos que adoptou o corte de cabelo à escovinha, algo que revela em aparência o macho hodierno todo prontinho para a quotidiana guerra sexual à moda do leão que rapou a austera juba a roçar-se num tronco de bananeira.
Eis a grande manchete do dia: "Vasco Noronha, o braço-direito de Teixeira dos Santos, foi humilhado na Internet e já apresentou queixa na polícia - IMPOSTOR fez-se passar por assessor de ministro e diz que é BISSEXUAL - Fotos privadas e uma série de mentiras deram para construir um falso site pessoal, cheio de frases eróticas, escritas como se fossem do homem que trabalha para o ministro das Finanças. Este já sabe do caso, está indignado com o escândalo e solidário com o acessor".
Folheio para o interior do matutino, ao encontro do cirúrgico director Pedro Tadeu, nas "Notas do dia", que escreve breve sob o título de "Assassínio":
"A notícia de capa deste jornal relata a tentativa de assassinato de carácter, via Internet, de um acessor governamental. Dizem-nos que o ministro das Finanças está solidário com o seu assessor, vítima desta canalhice. Eu, se fosse o ministro, fazia mais e juntava-me à queixa na polícia, pois os motivos que estão por detrás de algo deste tipo podem ser muito mais tenebrosos do que uma brincadeira ou mesmo uma vendetta pessoal: ninguém garante que não haja aqui uma qualquer motivação política".
É que claro que credito o Tadeu numa muito especial linha de raciocínio. Ele sabe escrever singelo e esclarecidamente limpinho, consabendo também dantemão, sobretudo, para quem escreve. Eu sei lê-lo assaz além daquém: tomo-lhe a serena superfície e mergulho para dentro do cavernoso conteúdo, profundamente, até ao leito dos esconsos lodos que um director de jornal, bem entrosado nos ossos do ofício, está fartíssimo e quiçá enojado de reconhecer e experimentar.
Eu sou um tipo de repentes, daquele género que arranca de sopetão ou não arranca. Arranquei desta feita para mais uma concepção de um sítio na Internet, inspirado nas emanações em que o "24 Horas" dia a dia me empolgará - http://paginternet.com.sapo.pt - algo que existirá logo a seguir ao meu jornal preferido, uma espécie de câmara de eco dos subjacentes conhecimentos com que o Tadeu faz rebentar as entre-linhas dos seus estreitos e curtos textozinhos verticais.
Avanço e vou lendo até verificar que, consoante desde há dias se vem propalando, Carlos Sousa, "suspeito de reformas compulsivas", despedir-se-à hoje da presidência da Câmara Municipal de Setúbal, caindo entre os gonzos do hermético silêncio do Comité Central do PCP, após cuidada análise socialista-capitalista à mesa redonda da singularíssima massa encefálica do actual comunismo português.
Na última página, a Clarinha, de um lado, e o sr. Joaquim, do outro, cronicam com gosto ao "reggaezinho" e para "rir e chorar", respectivamente. Ao centro, surge a foto de um jovem marinheiro actual, míope, a vigiar, quiçá, se na costa há gaivotas ou fugiram todas para as imediações dos contentores de lixo da cidade. Entretanto, no "Facto" do dia, 5 jovens, prováveis dependentes dos graffiters, foram apanhados na estação do metro do Colégio Militar, o que provocou a paragem das composições na Linha Azul.
Oh... Caros Leitores, estou neste momento a lembrar-me de uma interpelação pública que um dito "amiguinho" meu, há uns anos, inopinadamente me fez, colocando-me com ganas de matá-lo: " - Então, Torre, sempre é verdade que o gajo que ontem te chamou "larilas" morreu atropelado no cruzamento de Mindelo?...".
Ah, caramba, senhor ministro, como a corda cada vez mais está insuportavelmente bamba!... E aqui estou eu, logo a seguir ao "24 Horas" e ao Tadeu, a dar mais um subtil empurrãozinho, enquanto me parece ouvir o longínquo sussurro de minha mãe a recomendar-me: " - Tem cuidado, meu filho, não vão os detritos cair-te em cima".
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